O Índice de Progresso Social nos municípios brasileiros

Desenvolvimento
Economia
Municípios
O Índice de Progresso Social separa o melhor e o pior município brasileiro por quase 37 pontos. A dimensão que puxa o país para baixo não é saneamento nem moradia: é o acesso a direitos e à educação superior.
Autor

Vinicius Oike Reginatto

Data de Publicação

15 de setembro de 2024

Faixas curvas azuis e claras se sobrepõem sob um campo de cor linho

A renda de um município brasileiro explica pouco do que se vive nele. Entre as 5.570 cidades do país, a correlação entre o logaritmo do PIB per capita e o Índice de Progresso Social (IPS) é de 0,40: municípios de renda parecida chegam a pontuações sociais muito distantes. O que quase todos têm em comum é onde falham.

O que o IPS mede

O IPS avalia o desenvolvimento social sem usar variáveis econômicas. Enquanto o PIB per capita mede a riqueza produzida, o IPS mede resultados: quanta gente tem água tratada, quantas crianças concluem a escola, quem alcança o ensino superior.

O índice se organiza em três dimensões, cada uma formada por quatro componentes.

Necessidades Humanas Básicas reúne nutrição e cuidados médicos, água e saneamento, moradia e segurança pessoal. Fundamentos do Bem-estar cobre acesso ao conhecimento básico, informação e comunicação, saúde e qualidade do meio ambiente. Oportunidades trata de direitos individuais, liberdades pessoais, inclusão social e acesso à educação superior.

O IPS-Brasil é uma adaptação da metodologia internacional do Social Progress Index, feita pelo Imazon em parceria com o Social Progress Imperative. Os dados deste post cobrem todos os municípios do país; as variáveis de contexto trazem a população do Censo de 2022 e o PIB per capita de 2021.

Estatísticas descritivas

Todos os indicadores vão de 0 a 100, e valores maiores indicam melhor desempenho.

O índice, suas dimensões e seus componentes
Distribuição entre os municípios brasileiros. Escala de 0 a 100.
Mínimo Média Mediana Máximo
Índice geral
Índice de Progresso Social 37,6 58,1 58,1 74,5
Dimensões
Necessidades Humanas Básicas 36,8 71,5 72,1 90,8
Fundamentos do Bem-estar 35,2 62,7 63,3 77,7
Oportunidades 19,2 40,0 40,0 64,0
Componentes
Nutrição e Cuidados Médicos Básicos 34,7 69,4 70,0 90,3
Água e Saneamento 11,3 68,5 70,8 99,3
Moradia 10,5 86,9 89,1 99,6
Segurança Pessoal 0,0 61,0 63,3 87,4
Acesso ao Conhecimento Básico 23,2 70,8 72,4 90,4
Acesso à Informação e Comunicação 12,4 59,7 60,9 91,0
Saúde e Bem-estar 20,9 56,4 56,9 76,2
Qualidade do Meio Ambiente 9,0 64,0 66,1 81,8
Direitos Individuais 5,2 28,5 27,1 74,9
Liberdades Individuais e de Escolha 1,2 40,6 40,2 80,9
Inclusão Social 1,3 60,8 62,4 99,1
Acesso à Educação Superior 4,1 30,0 28,5 74,6
Fonte: IPS-Brasil (Imazon). Elaboração: EKIO.

Dois componentes ficam muito abaixo do resto: Direitos Individuais, com média de 28,5, e Acesso à Educação Superior, com 30,0. No outro extremo, Moradia chega a 86,9. O contraste explica por que a dimensão Oportunidades, que abriga os dois primeiros, fica tão atrás das outras duas.

Como o índice se distribui

Quase 59% dos municípios pontuam entre 50 e 60. A distribuição é simétrica: a média, 58,1, praticamente coincide com a mediana. Não há cauda longa de casos extremos em nenhum dos lados — o que o gráfico mostra é um país agrupado numa faixa estreita, com poucas cidades se destacando para cima ou para baixo.

Essa média dá o mesmo peso a Serra da Saudade, com 833 habitantes, e a São Paulo, com 11,5 milhões. Ponderando pela população, o índice do brasileiro típico sobe para 61,8, porque os municípios maiores pontuam melhor. As comparações a seguir usam a média simples entre municípios, como é usual na leitura do IPS, mas a diferença de 3,8 pontos entre as duas medidas pesa em qualquer comparação regional.

As três dimensões

A distância entre as dimensões é grande. Necessidades Humanas Básicas tem média de 71,5 e Fundamentos do Bem-estar, 62,7; Oportunidades fica em 40,0, mais de trinta pontos abaixo da primeira. Nenhum município brasileiro alcança 65 pontos em Oportunidades, patamar que milhares de municípios ultrapassam nas outras duas dimensões.

Oportunidades não é, porém, a dimensão mais dispersa. Seu desvio-padrão, 5,9, é menor que o de Necessidades Humanas Básicas, 8,0. O que a distingue é o nível, não a variabilidade — os municípios brasileiros falham em oportunidades de forma bastante uniforme.

Os doze componentes deixam claro onde está o problema. Moradia é o ponto forte do país. Direitos individuais e acesso à educação superior ficam abaixo de 30 pontos e derrubam sozinhos a média de Oportunidades.

Desempenho regional

O ranking entre regiões segue o esperado. O Sudeste lidera com 60,9 pontos e o Norte fecha a lista com 51,6, uma distância de 9,3 pontos. São Paulo, Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul ocupam as primeiras posições entre os estados; Roraima, Acre, Pará e Amazonas, as últimas.

O ranking se inverte, porém, quando se olha só para Oportunidades. Aí o Nordeste (40,5) fica acima do Sudeste (39,2). A inversão vem do componente de inclusão social, que no IPS-Brasil mede paridade de gênero e de raça na câmara municipal, violência contra mulheres, negros e indígenas, e trabalho infantil: os municípios nordestinos marcam 72,0 contra 51,2 dos paulistas, mineiros, cariocas e capixabas. Desenvolvimento econômico e inclusão política não caminham juntos.

Extremos

Os dez municípios com maior IPS
Pontuação geral e por dimensão.
Município UF IPS Necessidades Bem-estar Oportunidades
Gavião Peixoto SP 74,5 86,6 72,9 64,0
Brasília DF 71,3 79,2 73,8 60,8
São Carlos SP 71,0 79,9 74,3 58,7
Goiânia GO 70,5 80,6 72,6 58,3
Nuporanga SP 70,5 82,9 70,5 58,0
Indaiatuba SP 70,5 84,2 74,3 52,9
Gabriel Monteiro SP 70,4 90,8 71,7 48,8
Águas de São Pedro SP 70,4 88,5 70,6 52,0
Jaguariúna SP 70,3 83,7 73,7 53,4
Araraquara SP 70,2 83,1 73,6 53,9
Fonte: IPS-Brasil (Imazon). Elaboração: EKIO.

São Paulo domina o topo da lista, com 8 dos dez primeiros colocados. As duas exceções são capitais: Brasília e Goiânia. O primeiro lugar cabe a Gavião Peixoto, no interior paulista, um município de menos de cinco mil habitantes — a lista mistura cidades médias industrializadas com municípios pequenos, onde um número reduzido de habitantes facilita a cobertura de serviços.

Os dez municípios com menor IPS
Pontuação geral e por dimensão.
Município UF IPS Necessidades Bem-estar Oportunidades
Uiramutã RR 37,6 42,3 45,0 25,5
Alto Alegre RR 38,4 36,8 48,3 30,1
Trairão PA 38,7 49,7 36,2 30,2
Bannach PA 38,9 51,1 41,2 24,4
Jacareacanga PA 38,9 49,9 39,3 27,5
Cumaru do Norte PA 40,6 46,3 40,1 35,5
Pacajá PA 40,7 46,5 43,1 32,5
Uruará PA 41,3 45,2 49,1 29,5
Portel PA 42,2 47,6 42,5 36,6
Bonfim RR 42,3 54,8 48,7 23,3
Fonte: IPS-Brasil (Imazon). Elaboração: EKIO.

Na outra ponta, os dez piores resultados estão todos no Pará e em Roraima. São municípios amazônicos que pontuam mal nas três dimensões ao mesmo tempo, e não apenas em uma delas: nenhum passa de 55 pontos em Necessidades Humanas Básicas, patamar que a mediana nacional supera com folga.

Dados e referências

Ninguém decide só com dados. E ninguém decide bem sem eles.

A decisão continua sendo sua. Nosso trabalho é diminuir o que ela tem de aposta.

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