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O Índice de Progresso Social nos municípios brasileiros

Desenvolvimento
Economia
Municípios
O Índice de Progresso Social (IPS) oferece um rico conjunto de indicadores para avaliar os municípios brasileiros. Suas dimensões medem coisas diferentes: o acesso ao ensino superior acompanha a renda dos municípios, a inclusão social não.
Autor

Vinicius Oike Reginatto

Data de Publicação

15 de setembro de 2024

Faixas curvas azuis e claras se sobrepõem sob um campo de cor linho

O que o IPS mede

O IPS avalia o desenvolvimento social sem usar variáveis econômicas. Enquanto o PIB per capita mede a riqueza produzida, o IPS mede resultados: quantas pessoas têm acesso a água tratada, quantas crianças concluem a escola e quantos adultos alcançam o ensino superior.

O índice se organiza em três dimensões, cada uma formada por quatro componentes.

Necessidades Humanas Básicas reúne nutrição e cuidados médicos, água e saneamento, moradia e segurança pessoal. Fundamentos do Bem-estar cobre acesso ao conhecimento básico, informação e comunicação, saúde e qualidade do meio ambiente. Oportunidades trata de direitos individuais, liberdades pessoais, inclusão social e acesso à educação superior.

O IPS-Brasil é uma adaptação da metodologia internacional do Social Progress Index, feita pelo Imazon em parceria com o Social Progress Imperative. Os dados deste post cobrem todos os municípios do país; as variáveis de contexto trazem a população do Censo de 2022 e o PIB per capita de 2021.

Estatísticas descritivas

Todos os indicadores vão de 0 a 100, e valores maiores indicam melhor desempenho. A tabela abaixo resume os valores médios e medianos do IPS.

O índice, suas dimensões e seus componentes
Distribuição entre os municípios brasileiros. Escala de 0 a 100.
Mínimo Média Mediana Máximo
Índice de Progresso Social 37,6 58,1 58,1 74,5
Necessidades Humanas Básicas 36,8 71,5 72,1 90,8
Nutrição e Cuidados Médicos Básicos 34,7 69,4 70,0 90,3
Água e Saneamento 11,3 68,5 70,8 99,3
Moradia 10,5 86,9 89,1 99,6
Segurança Pessoal 0,0 61,0 63,3 87,4
Fundamentos do Bem-estar 35,2 62,7 63,3 77,7
Acesso ao Conhecimento Básico 23,2 70,8 72,4 90,4
Acesso à Informação e Comunicação 12,4 59,7 60,9 91,0
Saúde e Bem-estar 20,9 56,4 56,9 76,2
Qualidade do Meio Ambiente 9,0 64,0 66,1 81,8
Oportunidades 19,2 40,0 40,0 64,0
Direitos Individuais 5,2 28,5 27,1 74,9
Liberdades Individuais e de Escolha 1,2 40,6 40,2 80,9
Inclusão Social 1,3 60,8 62,4 99,1
Acesso à Educação Superior 4,1 30,0 28,5 74,6
Fonte: IPS-Brasil (Imazon). Elaboração: EKIO.

Nenhuma cidade brasileira consegue uma pontuação próxima de 100. A média nacional fica em torno de 58. A cidade com melhor desempenho é Gavião Peixoto (SP), cidade do interior de São Paulo, famosa pela presença da Embraer. Entre as cidades com mais de 800 mil habitantes, a de maior IPS é Brasília (DF), com 71,3.

As dimensões de Necessidades Humanas Básicas e de Fundamentos do Bem-estar têm as pontuações mais elevadas. O componente de moradia, em particular, tem média próxima de 87, e algumas cidades chegam perto de 100. O IPS não aborda diretamente o déficit habitacional e nem a falta de moradia; a sua metodologia computa apenas a presença de infraestrutura básica nas casas das famílias: piso, parede, acesso à rede elétrica e ao serviço de coleta de lixo.

A dimensão de Oportunidades tem a pior avaliação, e dois de seus componentes ficam muito abaixo do resto: Direitos Individuais, com média de 28,5, e Acesso à Educação Superior, com 30,0.

Como o índice se distribui

Histograma do Índice de Progresso Social nos municípios brasileiros. A maioria das pontuações se concentra no meio da escala de 0 a 100, com poucos municípios nos extremos.

Quase 59% dos municípios pontuam entre 50 e 60. A distribuição é simétrica: a média, 58,1, praticamente coincide com a mediana e o gráfico revela que há poucas cidades que se destacam, tanto positivamente como negativamente.

Essa média dá o mesmo peso a Serra da Saudade, com 833 habitantes, e a São Paulo, com 11,5 milhões. Ponderando pela população, o índice do brasileiro típico sobe para 61,8, porque os municípios maiores pontuam melhor. A comparação entre estados, mais adiante, usa a média ponderada, que responde melhor à pergunta sobre como vivem os moradores de cada estado.

Dimensões que não andam juntas

A tabela mostra Oportunidades bem abaixo das outras duas dimensões, mas essa distância diz pouco por si só. O IPS normaliza cada indicador entre um pior e um melhor valor de referência, e o nível de cada componente depende dessas referências. Por isso, a forma como as dimensões variam entre os municípios informa mais do que o nível de cada uma.

Necessidades Humanas Básicas e Fundamentos do Bem-estar andam juntas: a correlação entre as duas é de 0,60. Oportunidades quase não acompanha as outras, com correlações de 0,18 e 0,21. Um município com boa infraestrutura, saúde e escolas não tem, só por isso, mais acesso ao ensino superior ou uma câmara municipal mais diversa. O índice geral soma, portanto, coisas que medem aspectos diferentes do desenvolvimento.

Gráfico de barras da correlação entre cada componente do IPS e o logaritmo do PIB per capita dos municípios. Acesso à educação superior, liberdades individuais e acesso à informação têm as correlações mais altas; saúde, meio ambiente e direitos individuais ficam perto de zero; inclusão social tem correlação negativa.

A renda explica só parte do índice: a correlação do IPS com o logaritmo do PIB per capita é de 0,40. Entre os componentes, o padrão varia bastante. Acesso à educação superior (0,56), liberdades individuais e acesso à informação são os que mais acompanham a renda. Saúde, meio ambiente e direitos individuais praticamente não se relacionam com ela. Inclusão social tem correlação negativa, -0,29: municípios mais ricos tendem a pontuar pior nesse componente, que volta a aparecer na comparação regional.

Desempenho regional

Mapa dos municípios brasileiros coloridos pelo Índice de Progresso Social, em cinco faixas de azul. Os tons mais escuros, de índice mais alto, predominam no Sul, em São Paulo, no Triângulo Mineiro e em Goiás. Os tons mais claros se concentram no Norte, sobretudo no Pará, no Amazonas e em Roraima, e em partes do Maranhão e da Bahia. As capitais do Norte aparecem mais escuras que os municípios vizinhos.

O ranking entre regiões segue o esperado. Ponderado pela população, o Sudeste lidera com 64,5 pontos e o Norte fecha a lista com 55,3. Entre os estados, São Paulo, Santa Catarina e Paraná vêm logo depois do Distrito Federal; Pará, Acre, Rondônia e Maranhão ocupam as últimas posições. O Distrito Federal é um município único, mas a média ponderada o torna comparável aos estados: nos dois casos, o número descreve o morador típico.

O mapa mostra o que as médias estaduais escondem. São Paulo forma a maior mancha contínua de índices altos: 88% dos municípios paulistas passam de 60 pontos. No Norte, grande parte do território fica abaixo de 50, e as exceções são as capitais e alguns municípios vizinhos. Boa Vista e Manaus concentram mais da metade da população de seus estados, por isso a média ponderada supera a simples em 9,5 pontos em Roraima e em 7,4 no Amazonas. Nesses estados, o número que descreve o morador típico diz pouco sobre o interior.

Oportunidades pouco separa as regiões: ponderadas pela população, as médias vão de 42,5 a 47,8. O componente de inclusão social, porém, inverte o ranking regional. No IPS-Brasil, ele mede paridade de gênero e de raça na câmara municipal, violência contra mulheres, negros e indígenas, e trabalho infantil. O Nordeste marca 60,0 nesse componente, e o Sudeste, primeiro no índice geral, fica em último, com 41,3. Desenvolvimento econômico e inclusão política não caminham juntos.

Extremos

Os dez municípios com maior IPS
Pontuação geral e por dimensão.
Município UF IPS Necessidades Bem-estar Oportunidades
Gavião Peixoto SP 74,5 86,6 72,9 64,0
Brasília DF 71,3 79,2 73,8 60,8
São Carlos SP 71,0 79,9 74,3 58,7
Goiânia GO 70,5 80,6 72,6 58,3
Nuporanga SP 70,5 82,9 70,5 58,0
Indaiatuba SP 70,5 84,2 74,3 52,9
Gabriel Monteiro SP 70,4 90,8 71,7 48,8
Águas de São Pedro SP 70,4 88,5 70,6 52,0
Jaguariúna SP 70,3 83,7 73,7 53,4
Araraquara SP 70,2 83,1 73,6 53,9
Fonte: IPS-Brasil (Imazon). Elaboração: EKIO.

São Paulo domina o topo da lista, com 8 dos dez primeiros colocados. As duas exceções são capitais: Brasília e Goiânia. O primeiro lugar cabe a Gavião Peixoto, no interior paulista, um município de menos de cinco mil habitantes — a lista mistura cidades médias industrializadas com municípios pequenos, onde um número reduzido de habitantes facilita a cobertura de serviços.

Os dez municípios com menor IPS
Pontuação geral e por dimensão.
Município UF IPS Necessidades Bem-estar Oportunidades
Uiramutã RR 37,6 42,3 45,0 25,5
Alto Alegre RR 38,4 36,8 48,3 30,1
Trairão PA 38,7 49,7 36,2 30,2
Bannach PA 38,9 51,1 41,2 24,4
Jacareacanga PA 38,9 49,9 39,3 27,5
Cumaru do Norte PA 40,6 46,3 40,1 35,5
Pacajá PA 40,7 46,5 43,1 32,5
Uruará PA 41,3 45,2 49,1 29,5
Portel PA 42,2 47,6 42,5 36,6
Bonfim RR 42,3 54,8 48,7 23,3
Fonte: IPS-Brasil (Imazon). Elaboração: EKIO.

Na outra ponta, os dez piores resultados estão todos no Pará e em Roraima. São municípios amazônicos que pontuam mal nas três dimensões ao mesmo tempo, e não apenas em uma delas: nenhum passa de 55 pontos em Necessidades Humanas Básicas, patamar que a mediana nacional supera com folga.

Dados e referências

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