A história da inflação brasileira
O Brasil tem uma relação longa e dolorosa com a inflação. Embora os critérios mais usuais classifiquem apenas um breve intervalo do início dos anos 1990 como hiperinflação, poucos países enfrentaram por tanto tempo uma alta de preços tão persistente. O primeiro gráfico apresenta a variação mensal do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) e destaca eventos econômicos e institucionais importantes. As cores ao fundo identificam os ocupantes da Presidência da República; João Figueiredo aparece como o último presidente do regime militar, e não como um presidente eleito pelo voto direto.
A visualização foi inspirada no livro Saga brasileira: a longa luta de um povo por sua moeda, de Miriam Leitão. A inflação acumulada no período anterior ao Plano Real superou 13 trilhões por cento. Em julho de 1994, o novo plano estabilizou a economia e encerrou décadas de inflação elevada. A mudança foi profunda, mas não tornou o país imune à alta de preços: nos quase 30 anos seguintes, a inflação acumulada chegou a 560%.
O gráfico não mostra com a mesma clareza a sucessão de moedas que marcou esse período. Quase todo plano econômico trouxe uma troca de moeda ou algum tipo de congelamento de preços e salários. As quedas abruptas da série coincidem com esses episódios: a inflação parecia ceder por pouco tempo e logo voltava com força.
Até 1986, o país usava o cruzeiro, que passou por diversas reformas para acomodar a inflação. O Plano Cruzado introduziu o cruzado; em 1989, o Plano Verão criou o cruzado novo. O Plano Collor retomou o nome cruzeiro em 1990. Na transição para o real, o cruzeiro virou cruzeiro real e o governo criou a Unidade Real de Valor (URV), uma unidade de conta que antecedeu a nova moeda.
Depois do Plano Real
A estabilização de 1994 não reduziu a inflação imediatamente aos níveis que prevaleceriam nos anos seguintes. O segundo gráfico concentra a análise no período posterior ao Plano Real e apresenta a variação do IPCA acumulada em 12 meses. A série começa em julho de 1995 para evitar que as taxas anteriores à estabilização contaminem a comparação.
O IPCA caiu de forma contínua nos primeiros anos do Plano Real e chegou ao fim da década de 1990 no menor patamar em muitos anos. As crises que começaram na Ásia e se espalharam por outras economias emergentes pressionaram o regime cambial brasileiro. Em 1999, o Banco Central deixou o câmbio flutuar e adotou o regime de metas de inflação. No ano seguinte, a Lei de Responsabilidade Fiscal estabeleceu novas regras para a gestão das finanças públicas.
Nos anos 2000, a inflação permaneceu acima do centro da meta em boa parte do tempo, apesar dos juros elevados e dos superávits primários. Ao mesmo tempo, o boom das commodities ampliou os superávits comerciais, enquanto a estabilidade macroeconômica e o fortalecimento institucional atraíram investimento externo. O país também atravessou a crise financeira de 2008 com uma queda relativamente breve da atividade econômica.
Na década seguinte, a inflação voltou a ganhar força. Diante da desaceleração da economia, o governo ampliou os gastos, reduziu os juros e criou linhas de crédito subsidiado e desonerações tributárias. Também conteve preços administrados, como os de energia elétrica, combustíveis e transporte público. O reajuste desses preços em 2015 elevou a inflação e agravou a deterioração do cenário macroeconômico. Em agosto de 2016, o Senado aprovou o impeachment de Dilma Rousseff, e o vice-presidente Michel Temer assumiu a Presidência.
A inflação recuou nos anos seguintes, período em que o Congresso aprovou o teto de gastos e a reforma da Previdência. A autonomia formal do Banco Central entrou em vigor em 2021. Depois do choque inflacionário associado à pandemia de Covid-19, a autoridade monetária elevou fortemente a taxa básica de juros. Em agosto de 2023, com a inflação em queda, o Banco Central iniciou um novo ciclo de redução da Selic.
