O crescimento das regiões metropolitanas brasileiras

Censo
Demografia
Análise Espacial
Brasil
Algumas das principais regiões metropolitanas do país perderam população ou cresceram pouco entre 2010 e 2022. Os contrastes regionais mostram o dinamismo de Santa Catarina e do Centro-Oeste e a desaceleração de grandes centros.
Autor

Vinicius Oike Reginatto

Data de Publicação

15 de junho de 2025

Composição abstrata de núcleos urbanos em azul e tons de papel, com blocos que se dispersam pelo território

Os resultados do Censo 2022 trouxeram à tona um fenômeno que tem gerado intensos debates sobre o futuro demográfico do Brasil: pela primeira vez em décadas, algumas das principais regiões metropolitanas do país registraram redução populacional ou crescimento próximo de zero. Para melhor compreender esta transformação, vale analisar os dados em uma perspectiva histórica e regional.

As taxas citadas a seguir são anuais e se referem a 2010–2022, salvo indicação em contrário. Os recortes metropolitanos seguem a composição de 2018 e incluem suas áreas associadas; em Belo Horizonte, por exemplo, incluem o colar metropolitano.

Resumo

  • Desaceleração generalizada. As metrópoles brasileiras registram queda nas taxas de crescimento populacional nas últimas décadas. Em 2022, 117 milhões de pessoas moravam em regiões metropolitanas (58% da população brasileira, no recorte adotado); em 2010, havia 109 milhões. O crescimento anual nas metrópoles foi de 0,59%, valor muito próximo à média brasileira de 0,52%.

  • Crescimento negativo em grandes centros. Rio de Janeiro (-0,14%), Salvador (-0,38%), Porto Alegre (-0,03%) e Belém (-0,11%) apresentam retração populacional. Em alguns casos a capital também registrou perdas populacionais.

  • São Paulo em desaceleração. A população da RM de São Paulo aumentou em cerca de 1 milhão de habitantes, saindo de 19,7 para 20,7 milhões. O crescimento entre 2010 e 2022 foi praticamente a metade do registrado no período anterior (2000-2010) quando a população aumentou em 1,8 milhão de habitantes.

  • Florianópolis e Santa Catarina em destaque. A RM de Florianópolis cresceu 2,47% ao ano, maior crescimento entre as metrópoles de grande porte. Outros eixos de SC também cresceram acima da média brasileira como Chapecó (1,77%), a Foz do Rio Itajaí (3,25%), o Vale do Itajaí (1,67%), a Região do Norte/Nordeste Catarinense (1,61%) e a Região Carbonífera (1,34%).

  • Metrópoles do Centro-Oeste ganham espaço. Na contramão de Rio de Janeiro e Salvador, Brasília (RIDE DF) registrou crescimento médio de 1,15% ao ano; a população da metrópole aumentou em mais de meio milhão de habitantes, chegando a 4,5 milhões, e se tornou a 4ª maior região metropolitana do país, superando Porto Alegre, que estagnou na última década.

  • Cidades médias crescem mais do que grandes centros. As cidades com mais de 1 milhão de habitantes aumentaram sua população em cerca de 339 mil habitantes, de 2010 a 2022, e quase metade delas teve perdas populacionais. Já as cidades de 100 a 500 mil habitantes aumentaram sua população em 6,4 milhões de habitantes (crescimento médio ponderado de 14,3%) e quase 90% delas registraram ganhos populacionais.


Crescimento demográfico nas regiões metropolitanas
Recortes com mais de um milhão de habitantes em 2022.
Recorte metropolitano
População (mil)
Crescimento (% ao ano)
2000 2010 2022 1991–2000 2000–2010 2010–2022
São Paulo 17.880 19.684 20.732 1,64% 0,97% 0,43%
Rio de Janeiro 10.967 11.946 11.743 1,16% 0,86% −0,14%
Belo Horizonte + colar 4.833 5.430 5.734 2,34% 1,17% 0,45%
RIDE DF 3.118 3.911 4.484 3,40% 2,29% 1,15%
Porto Alegre 3.783 4.032 4.019 1,59% 0,64% −0,03%
Fortaleza 3.166 3.741 3.906 2,44% 1,68% 0,36%
Recife 3.409 3.766 3.808 1,49% 1,00% 0,09%
Curitiba 2.813 3.224 3.560 3,08% 1,37% 0,83%
Salvador 3.120 3.575 3.415 2,11% 1,37% −0,38%
Campinas 2.348 2.809 3.179 2,54% 1,81% 1,04%
Goiânia 1.704 2.131 2.549 3,25% 2,26% 1,50%
Manaus 1.726 2.211 2.533 3,53% 2,51% 1,14%
Vale do Paraíba e Litoral Norte 1.992 2.265 2.506 2,10% 1,29% 0,85%
Belém 1.973 2.275 2.244 2,82% 1,43% −0,11%
Sorocaba 1.603 1.871 2.175 2,74% 1,56% 1,26%
Grande Vitória 1.439 1.688 1.881 2,65% 1,61% 0,91%
Baixada Santista 1.477 1.664 1.806 2,14% 1,20% 0,68%
Ribeirão Preto 1.308 1.511 1.648 1,79% 1,45% 0,73%
Grande São Luís 1.225 1.493 1.646 2,78% 1,99% 0,82%
Natal 1.172 1.409 1.518 2,44% 1,86% 0,62%
Norte/Nordeste Catarinense 1.030 1.223 1.481 2,20% 1,73% 1,61%
AU de Piracicaba 1.181 1.333 1.467 2,07% 1,22% 0,81%
Florianópolis 816 1.012 1.357 2,94% 2,17% 2,47%
João Pessoa 981 1.156 1.304 2,00% 1,66% 1,01%
Maceió 1.054 1.227 1.301 2,37% 1,53% 0,48%
RIDE Teresina 1.008 1.151 1.247 1,87% 1,34% 0,66%
Londrina 897 1.000 1.089 1,45% 1,09% 0,71%
Vale do Rio Cuiabá 836 944 1.087 2,01% 1,23% 1,18%
Fonte: IBGE, Censos Demográficos. Recortes de 2018, incluindo áreas associadas. Elaboração: EKIO.

O Contexto da Desaceleração Demográfica

Os dados mostram um cenário de clara desaceleração do crescimento populacional nas principais regiões metropolitanas brasileiras. São Paulo, que manteve taxas de crescimento de 1,64% ao ano entre 1991 e 2000, viu este ritmo cair para 0,97% entre 2000 e 2010 e apenas 0,43% entre 2010 e 2022. O Rio de Janeiro apresenta situação ainda mais dramática, com crescimento de -0,14% ao ano entre 2010 e 2022, indicando redução populacional.

Como comentado em outros posts, o número de nascimentos no Brasil está em tendência de queda; de fato, em 2022, 16% dos municípios registraram mais óbitos do que nascimentos. Do outro lado, a população está envelhecendo, sobretudo no Sul e no Sudeste. Essa mudança demográfica sinaliza um aperto da razão de dependência no longo prazo e maiores dificuldades para manter o crescimento econômico.

Ainda que o Brasil siga se urbanizando, o Censo Demográfico de 2022 trouxe um primeiro alerta às cidades brasileiras. Ainda é cedo para entender a motivação das quedas populacionais em alguns centros, mas pode-se especular que a mistura de aumento de custo de vida, baixo crescimento da renda e aumento de insegurança foram alguns dos principais fatores.

Diferentes Dinâmicas Regionais

A análise dos dados revela padrões regionais distintos que refletem as transformações econômicas e sociais do país.

Recortes metropolitanos do Sudeste
População total e taxa de crescimento geométrico médio entre cada Censo Demográfico.
Recorte metropolitano
População (mil)
Crescimento (% ao ano)
2022 1991–2000 2000–2010 2010–2022
São Paulo 20.732 1,64% 0,97% 0,43%
Rio de Janeiro 11.743 1,16% 0,86% −0,14%
Belo Horizonte + colar 5.734 2,34% 1,17% 0,45%
Campinas 3.179 2,54% 1,81% 1,04%
Vale do Paraíba e Litoral Norte 2.506 2,10% 1,29% 0,85%
Sorocaba 2.175 2,74% 1,56% 1,26%
Grande Vitória 1.881 2,65% 1,61% 0,91%
Baixada Santista 1.806 2,14% 1,20% 0,68%
Ribeirão Preto 1.648 1,79% 1,45% 0,73%
AU de Piracicaba 1.467 2,07% 1,22% 0,81%
AU de Jundiaí 844 2,42% 1,88% 1,58%
Vale do Aço 718 0,66% 0,86% 0,03%
Fonte: IBGE, Censos Demográficos. Recortes de 2018, incluindo áreas associadas. Elaboração: EKIO.

No Sudeste, observa-se uma clara desaceleração: além de São Paulo e Rio de Janeiro, mesmo regiões tradicionalmente dinâmicas como Campinas (1,04%) e Vale do Paraíba e Litoral Norte (0,85%) apresentaram crescimento modesto. Belo Horizonte, incluindo o colar metropolitano, manteve algum dinamismo (0,45%), mas bem abaixo dos padrões históricos. O conjunto de BH e seu colar demonstra um padrão de “fuga da capital”, explorado em detalhes adiante: enquanto a metrópole ganhou população, a capital perdeu.

O Sul apresenta o cenário mais heterogêneo do país. Enquanto Porto Alegre encolhe (-0,03%), regiões como Florianópolis (2,47%) lideram o crescimento nacional. Metrópoles médias como Chapecó (1,77%), Maringá (1,45%) e a região Carbonífera de Santa Catarina (1,34%) demonstram forte dinamismo demográfico, em regiões com presença do agronegócio e da indústria.

População total e taxa de crescimento geométrico médio entre cada Censo Demográfico.
Recorte metropolitano
População (mil)
Crescimento (% ao ano)
2022 1991–2000 2000–2010 2010–2022
Curitiba 3.560 3,08% 1,37% 0,83%
Londrina 1.089 1,45% 1,09% 0,71%
Maringá 852 1,83% 1,51% 1,45%
Cascavel 552 1,05% 0,83% 1,16%
Toledo 419 0,09% 1,08% 1,30%
Campo Mourão 342 −1,23% −0,37% 0,19%
Umuarama 325 −1,03% 0,33% 0,69%
Apucarana 296 −0,24% 0,19% 0,19%
Fonte: IBGE, Censos Demográficos. Recortes de 2018, incluindo áreas associadas. Elaboração: EKIO.
População total e taxa de crescimento geométrico médio entre cada Censo Demográfico.
Recorte metropolitano
População (mil)
Crescimento (% ao ano)
2022 1991–2000 2000–2010 2010–2022
Norte/Nordeste Catarinense 1.481 2,20% 1,73% 1,61%
Florianópolis 1.357 2,94% 2,17% 2,47%
Vale do Itajaí 842 2,38% 2,14% 1,67%
Foz do Rio Itajaí 782 4,43% 3,56% 3,25%
Carbonífera 645 1,69% 1,27% 1,34%
Contestado 539 1,32% 0,66% 0,63%
Chapecó 535 0,88% 1,23% 1,77%
Tubarão 405 1,35% 0,95% 1,07%
Lages 363 0,78% 0,04% 0,28%
Extremo Oeste 351 −0,38% 0,21% 0,53%
Alto Vale do Itajaí 310 0,92% 1,02% 1,17%
Fonte: IBGE, Censos Demográficos. Recortes de 2018, incluindo áreas associadas. Elaboração: EKIO.
População total e taxa de crescimento geométrico médio entre cada Censo Demográfico.
Recorte metropolitano
População (mil)
Crescimento (% ao ano)
2022 1991–2000 2000–2010 2010–2022
Porto Alegre 4.019 1,59% 0,64% −0,03%
Serra Gaúcha 801 2,29% 1,65% 0,72%
AU do Sul 572 1,11% 0,37% −0,09%
AU do Litoral Norte 361 3,62% 2,05% 2,01%
Fonte: IBGE, Censos Demográficos. Recortes de 2018, incluindo áreas associadas. Elaboração: EKIO.

No Centro-Oeste, todos os recortes metropolitanos analisados tiveram crescimento. Goiânia (1,50%) ultrapassou Belém (-0,11%) e Manaus (1,14%), chegando a 2,55 milhões de habitantes e se tornou a \(11^{\text{a}}\) maior região metropolitana. Já Brasília (1,15%) ultrapassou Porto Alegre (-0,03%) e se tornou a \(4^{\text{a}}\) maior metrópole do país com 4,5 milhões de habitantes. O Vale do Rio Cuiabá também registrou forte crescimento (1,18%) e ultrapassou a marca de 1 milhão de habitantes.

O Nordeste foi a região com menor crescimento populacional. A taxa de crescimento anual da região (0,24%) ficou abaixo da média do país e, em termos absolutos, a região cresceu menos do que o Centro-Oeste, apesar da sua população total ser três vezes maior.

A RM de Salvador é o destaque negativo: a metrópole perdeu mais de 100 mil habitantes; Fortaleza (0,36%) e Recife (0,09%) também mostram sinais de estagnação. O crescimento foi fraco também no interior, diversas metrópoles de Alagoas e da Paraíba registraram quedas populacionais: Caetés, AL (-1,14%), Vale do Paraíba, AL (-1,08%), Zona da Mata, AL (-0,79%), Vale do Piancó, PB (-0,25%) e Guarabira, PB (-0,04%) somente para citar algumas.

A Região Norte também apresentou contrastes no crescimento populacional. Manaus (1,14%) foi o destaque, crescendo em mais de 300 mil habitantes. Já Belém perdeu população (-0,11%), enquanto Porto Velho (0,62%) e Macapá (0,86%) cresceram mais lentamente que Manaus.

O Crescimento das Cidades Médias e Novos Polos Econômicos

Em termos agregados, as cidades de médio porte “ganharam” muito mais habitantes do que as cidades de mais de um milhão de habitantes: cerca de 6,4 milhões nas cidades de 100 a 500 mil habitantes, contra 339 mil nas maiores de um milhão, entre 2010 e 2022.

Nuances regionais: o caso de Belo Horizonte

A RM de Belo Horizonte e seu colar metropolitano ilustram um processo de redistribuição populacional. Enquanto a capital mineira registrou perda populacional de cerca de 60 mil habitantes, passando de 2,376 milhões para 2,316 milhões entre 2010 e 2022 (taxa de -0,21% ao ano), a população da região metropolitana e de seu colar cresceu 0,45% ao ano no mesmo período. Em termos absolutos, esse conjunto ganhou pouco mais de 300 mil habitantes (crescimento de 5,6%).

Clique nos municípios do mapa para consultar as populações e o crescimento anual.

Essa redistribuição populacional, compatível com a hipótese de migração da capital para as periferias, pode apontar uma busca por melhor qualidade de vida, menores custos habitacionais e novas oportunidades. Este tipo de movimentação também pode sinalizar uma saturação da capital, resultado de várias causas, incluindo: aumento da violência urbana, saturação da infraestrutura viária, aumento do custo de vida, piora na qualidade e oferta de serviços públicos. No caso de BH, Thiago Jardim relaciona parte desse processo às restrições urbanísticas da cidade, que dificultariam a expansão imobiliária1.

Nova Lima foi uma das cidades que mais cresceram nesse entorno. A cidade registrou crescimento de 2,71% ao ano, saltando de 80.998 para 111.697 habitantes - um aumento de quase 38% em apenas 12 anos. A cidade tem localização estratégica, próxima à região Centro-Sul da capital mineira, facilitando o deslocamento para regiões com empregos de alta qualidade. Na interpretação de Jardim, as condições para construir em Nova Lima são mais favoráveis do que na capital.

O padrão se repete em outros municípios da região: São José da Lapa (2,33%), Mateus Leme (2,59%), Igarapé (2,31%) e Itatiaiuçu (2,25%) apresentam crescimento robusto, evidenciando que o dinamismo metropolitano se deslocou para a periferia. Mesmo municípios menores como Florestal (1,62%) e Fortuna de Minas (1,12%) participam desse processo de redistribuição.

Fontes e método

A análise usa os Censos Demográficos do IBGE. As populações de 1991 e 2000 foram preservadas do arquivo original, obtido da tabela 136 do SIDRA. Para 2010–2022, usamos a população de 2010 compatibilizada pelo IBGE e os resultados de 2022 da tabela 4709. A taxa média geométrica anual é calculada como \((P_f/P_i)^{1/(t_f-t_i)}-1\), com intervalos de 9, 10 e 12 anos. Os cálculos usam populações sem arredondamento; as tabelas apresentam os totais em milhares.

A composição dos 81 recortes segue a base de 2018 do IBGE, distribuída pelo geobr. Inclui regiões metropolitanas, aglomerações urbanas, RIDEs e áreas associadas, como colares e áreas de expansão, conforme a definição desses recortes pelo IBGE. Não corresponde à delimitação atual das regiões nem à classificação de metrópoles por influência urbana. Murici (AL), presente em dois recortes na base, é contado apenas em Maceió. Para 1991 e 2000, a série original não reconstitui todas as mudanças de limites municipais; as comparações históricas exigem essa ressalva.

O mapa de Belo Horizonte abrange os 34 municípios da RM e os 16 de seu colar metropolitano. Clique nos municípios para consultar as populações e o crescimento anual. Os gráficos por porte abrangem os 5.570 municípios, classificados pela população em 2022; o crescimento médio é a variação acumulada de 2010 a 2022, ponderada pela população de 2022.

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Notas de rodapé

  1. Essa é a interpretação apresentada por Thiago Jardim no artigo citado. As variações populacionais dos Censos, isoladamente, não identificam os fluxos migratórios nem o efeito causal das regras urbanísticas.↩︎