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Housing Affordability em São Paulo

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O Price-Income Ratio de São Paulo ficou próximo de 20 em 2021. Entre janeiro de 2020 e fevereiro de 2024, os preços dos imóveis na cidade subiram quase 80%, acima da inflação.
Autor

Vinicius Oike Reginatto

Data de Publicação

15 de março de 2024

Ilustração de casas compactas e sobrados justapostos

Quantos anos de renda familiar são necessários para comprar um imóvel típico em São Paulo? Em 2021, a resposta ficava em torno de vinte, segundo a estimativa apresentada a seguir. Entre janeiro de 2020 e fevereiro de 2024, os preços dos imóveis na cidade subiram quase 80%, enquanto a inflação acumulou cerca de 29%.

O PIR em São Paulo

O mapa abaixo apresenta o Price-Income-Ratio (PIR) por Zona OD na cidade de São Paulo. Os dados são de 2021 e provêm do artigo Acesso à moradia em São Paulo: visão geral e mensuração, publicado na LARES 2021.

O PIR é um indicador simples que mensura a acessibilidade financeira à moradia numa região: sua interpretação é do tipo “quanto maior, pior”, isto é, quanto maior for o valor do PIR, pior é a acessibilidade financeira à moradia. Especificamente, ele mede a razão entre os preços dos imóveis disponíveis em uma região (preços de anúncios) e a renda média das famílias na cidade.

O mapa abaixo compara o preço médio dos imóveis disponíveis nestas regiões com a renda média familiar bruta de São Paulo. Regiões centrais como Jardins e Alto de Pinheiros apresentam os piores indicadores de acessibilidade. No mapa, o PIR varia de cerca de 3 anos de renda em bairros da periferia leste, como Cidade Tiradentes e Santa Etelvina, a quase 29 anos no Jardim Europa; na metade das zonas, o indicador fica entre 6 e 12 anos. As zonas em cinza não possuem dados de preço disponíveis para o período.

Mapa do Price-Income Ratio por Zona OD em São Paulo em 2021. As cores representam o preço dos imóveis em anos de renda familiar. Os maiores valores se concentram nos Jardins e em Alto de Pinheiros; áreas sem dados aparecem em cinza.

O que é o PIR?

O PIR é uma razão simples entre o preço médio/mediano dos imóveis e a renda média/mediana anual das famílias:

\[\text{PIR} = \frac{\text{Preços}}{\text{Renda Anual}}\]

O PIR indica, grosso modo, a quantidade de “anos de trabalho” que uma família típica precisa investir de renda para comprar um imóvel típico. A principal vantagem do PIR é a sua simplicidade de cálculo, o que facilita comparações entre diferentes regiões. A principal desvantagem do PIR é ignorar as condições de financiamento disponíveis para a população. Supondo que a renda anual média das famílias seja \(R\$30.000\) e o preço médio dos imóveis, \(R\$270.000\), o valor do PIR seria:

\[\text{PIR} = \frac{R\$270.000}{R\$30.000} = 9\]

Na literatura internacional, valores de PIR na faixa de 5-10 indicam baixa acessibilidade financeira. Estudos feitos em países em desenvolvimento e subdesenvolvidos, contudo, apontam valores de PIR muito mais elevados do que este intervalo, devido tanto à baixa renda média da população quanto às condições limitadas de acesso ao crédito. Neste sentido, talvez uma comparação mais justa seja com as megacidades chinesas, que têm PIR na faixa de 10-15. No artigo Acesso à moradia em São Paulo: visão geral e mensuração, escrito por Vinicius Oike, em parceria com outros colegas, estima-se que o PIR de São Paulo em 2021 era próximo de 19-20. O site Numbeo apresenta o PIR para um amplo grupo de cidades no mundo: em 2021, segundo o site, o PIR de São Paulo era de 17,8.

Preços dos imóveis

A pandemia de Covid-19 acelerou o aumento dos preços dos imóveis no Brasil. Até então, o mercado ainda digeria os efeitos da recessão de 2015-2016: os preços acumulavam queda em 12 meses do fim de 2016 ao fim de 2017 e, na recuperação seguinte, as altas anuais não passavam de um dígito.

Gráfico de linhas da variação dos preços em 12 meses em São Paulo e no Brasil, comparada ao IPCA. A alta dos imóveis acelera após 2020 e perde força depois do pico de 2021.

A pandemia criou um boom imobiliário. Entre janeiro de 2020 e fevereiro de 2024, os preços dos imóveis em São Paulo acumularam alta de quase 80% — contra 64% na média brasileira e 29% de inflação. O pico da aceleração veio no fim de 2021, quando os preços subiram mais de 20% em 12 meses; desde então, o ritmo perdeu força, mas segue bem acima da inflação.

Gráfico de linhas da variação acumulada entre janeiro de 2020 e fevereiro de 2024. Os preços dos imóveis sobem quase 80% em São Paulo e 64% no Brasil, enquanto o IPCA acumula cerca de 29%.

Considerações finais

Os dois quadros contam, no fundo, a mesma história. Em 2021, o PIR de São Paulo já estava próximo de 20, e as regiões mais nobres registravam valores ainda mais extremos: quase 29 anos de renda no Jardim Europa e mais de 25 na rua Oscar Freire. Entre janeiro de 2020 e fevereiro de 2024, os preços acumularam alta de quase 80%, contra 29% de inflação. Esse intervalo começa antes da estimativa do PIR. Para medir a mudança na acessibilidade após 2021, seria necessário comparar preços e renda familiar no mesmo período.

Referências

Ninguém decide só com dados. E ninguém decide bem sem eles.

A decisão continua sendo sua. Nosso trabalho é diminuir o que ela tem de aposta.

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