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O impacto dos juros na demanda imobiliária

Mercado Imobiliário
Economia
Juros
Entre maio de 2021 e abril de 2023, a taxa média do financiamento habitacional subiu de 6,6% para 10,2% ao ano. O mesmo imóvel passou a exigir 34% mais renda para ser financiado mesmo antes de contar a alta dos preços.
Autor

Vinicius Oike Reginatto

Data de Publicação

17 de agosto de 2023

Ilustração de edifícios residenciais em torno de um pátio interno

Entre maio de 2021 e abril de 2023, a taxa média do financiamento habitacional passou de 6,64% para 10,24% ao ano. Este aumento acompanhou a alta da SELIC, que saltou de 3,5% para 13,75%.

O aumento dos juros tem enorme peso sobre o mercado imobiliário: além de encarecer o produto, diminui a capacidade de financiamento do comprador. Um apartamento de R$450 mil exigia renda de R$8.557; hoje, exige R$11.482. Ou seja, o aumento de 10 p.p. na SELIC se traduziu em aumento de 34% da renda exigida para financiar o imóvel.

A conta do financiamento

O financiamento imobiliário é um empréstimo que a família contrai com um banco e repaga em parcelas mensais, com juros sobre o saldo devedor. Do preço \(P\) do imóvel subtrai-se a entrada \(E\), e o restante forma a dívida \(D = P - E\). A razão entre dívida e preço é o loan-to-value (LTV): um LTV alto significa entrada baixa e dívida grande.

A modalidade dominante no Brasil é o Sistema de Amortização Constante (SAC). O nome descreve a mecânica: a cada mês, a família devolve a mesma fatia do principal, \(A = D/N\), e paga juros sobre o que ainda deve. Como o saldo devedor cai todo mês, os juros caem junto e a parcela encolhe ao longo do contrato. A primeira parcela é a maior, e é contra ela que o banco compara a renda do candidato.

Os parâmetros da simulação abaixo vêm do que os contratos brasileiros de fato registravam em abril de 2023. O LTV médio ficava em 69% no SFH e 72% na linha FGTS, então uso 70%. O prazo médio contratado era de 363 meses, então uso 360. Para o comprometimento de renda, uso a regra de bolso mais comum do mercado: a primeira parcela não pode passar de 30% da renda bruta familiar.

Num imóvel de R$450 mil com LTV de 70%, a entrada é de R$135 mil e a dívida, de R$315 mil. A amortização mensal é fixa em R$875. A uma taxa de 10% ao ano — equivalente a 0,7974% ao mês1 — a primeira parcela fica em R$3.386,85 e a renda exigida, em R$11.290.

Primeiro ano de um financiamento SAC
Fluxo de pagamento de um financiamento SAC típico: preço do imóvel R$450 mil, LTV de 70%, 360 meses de prazo e juros de 10% ao ano.
Mês Amortização Juros Parcela Saldo devedor
1 R$875 R$2.511,85 R$3.386,85 R$315.000
2 R$875 R$2.504,88 R$3.379,88 R$314.125
3 R$875 R$2.497,90 R$3.372,90 R$313.250
4 R$875 R$2.490,92 R$3.365,92 R$312.375
5 R$875 R$2.483,94 R$3.358,94 R$311.500
6 R$875 R$2.476,97 R$3.351,97 R$310.625
7 R$875 R$2.469,99 R$3.344,99 R$309.750
8 R$875 R$2.463,01 R$3.338,01 R$308.875
9 R$875 R$2.456,04 R$3.331,04 R$308.000
10 R$875 R$2.449,06 R$3.324,06 R$307.125
11 R$875 R$2.442,08 R$3.317,08 R$306.250
12 R$875 R$2.435,10 R$3.310,10 R$305.375

Ao longo dos 360 meses, a amortização se mantém a mesma e os juros diminuem gradativamente. A parcela sai de R$3.387 e termina em pouco mais de R$880.

Gráfico de linhas do fluxo mensal de um financiamento SAC de R$315 mil em 360 meses, com juros de 10% ao ano. A amortização é constante; os juros e a prestação diminuem ao longo do contrato.

Quanto custa um ponto de juros

Repetindo a simulação acima para diferentes valores de taxas de juro, podemos visualizar o que nos interessa: o efeito do aumento dos juros sobre a renda mínima exigida para o financiamento imobiliário. Para um imóvel de R$450 mil, cada ponto adicional de juros aumenta a renda mínima em R$800.

Gráfico de linhas da renda mínima exigida por taxa de juros para financiar um imóvel de R$450 mil. Cada ponto percentual adicional de juros aumenta a renda necessária em cerca de R$800.

A tabela abaixo resume os principais valores que o gráfico mostra. A 7% ao ano, uma família com R$8.854 de renda financia o imóvel; a 12%, precisa de R$12.880. São R$4.026 de renda mensal separando as duas situações, sem que o imóvel tenha mudado.

Renda mínima exigida para um imóvel de R$450 mil
Renda mínima exigida para ser elegível a um financimaneto imobiliário considerando LTV de 70%, 360 meses e comprometimento máximo de 30% da renda.
Juros (% a.a.) Primeira parcela Renda mínima
7,0 R$2.656 R$8.854
8,0 R$2.902 R$9.672
9,0 R$3.145 R$10.484
10,0 R$3.387 R$11.290
11,0 R$3.626 R$12.088
12,0 R$3.864 R$12.880

A SELIC não é a taxa do financiamento

A taxa que entra na conta do financiamento habitacional não é a SELIC. A meta SELIC é o instrumento de política monetária do COPOM, que a eleva quando a inflação acelera — foi o que fez em 2014-16 e de novo em 2021-23. Na reunião de 2 de agosto de 2023, o comitê reduziu a meta de 13,75% para 13,25% ao ano, a primeira queda desde março de 2021.

Gráfico de linhas da meta Selic anualizada ao longo do tempo. A taxa sobe de 2% em 2020 para 13,75% em 2022, antes do início dos cortes em agosto de 2023.

Entre a SELIC e o contrato de financiamento há várias camadas. O Banco Central classifica o crédito habitacional em cinco linhas — comercial, livre, home equity, FGTS e SFH — e cada uma tem seu próprio preço. As reguladas, FGTS e SFH, responderam por 84% do volume contratado com pessoas físicas em abril de 2023.

Gráfico de linhas das taxas médias de cinco modalidades de crédito habitacional, suavizadas por médias móveis de três meses. As linhas de financiamento apresentam custos diferentes ao longo do tempo.

As taxas sobem nos ciclos de alta da SELIC, mas em amplitudes distintas. A taxa do FGTS é administrada e está vinculada ao programa habitacional, não ao mercado. Tipicamente, é a de menor taxa do conjunto e oscila numa faixa estreita, entre 5,4% e 9,3%. Na outra ponta, o home equity cobra cerca de 2,8 vezes a taxa do FGTS ao longo de quase toda a série. Nos períodos de queda da SELIC, como em 2020, as taxas livres cedem enquanto a do FGTS fica praticamente parada.

O gráfico seguinte separa as taxas de mercado das reguladas e mostra que a transmissão é lenta e incompleta. A distância entre os dois grupos encolheu ao longo da série, e os aumentos recentes da SELIC chegaram ao consumidor com defasagem de alguns meses.

Gráfico de linhas da meta Selic e da taxa média do financiamento habitacional. A taxa contratada não acompanha integralmente as oscilações da Selic.

Vale notar um ponto que contraria a leitura de que o aperto de 2021-23 levou o crédito habitacional ao ponto mais caro da história. Apesar do aperto de 2021-23, a taxa média do financiamento habitacional em abril de 2023, de 10,24%, ainda estava abaixo do pico de 11,39% atingido em julho de 2016. O crédito habitacional encareceu, mas partiu de um patamar mais baixo do que no ciclo anterior.

O que os juros fizeram com a acessibilidade

Aplicada a taxa média observada em cada mês ao mesmo imóvel de R$450 mil, a série da renda exigida acompanha o ciclo de juros de perto. No fundo do ciclo, em maio de 2021, bastavam R$8.557. Em abril de 2023, com a taxa em 10,24%, o mesmo imóvel exigia R$11.482.

Gráfico de linhas da renda mínima para financiar um imóvel de R$450 mil, mantendo seu preço fixo. A renda exigida varia com a taxa de juros do financiamento.

Essa conta, porém, congela o preço do imóvel — e os preços não ficaram parados. Segundo o IGMI-R (Abrainc/FGV), os imóveis residenciais no Brasil valorizaram 58,4% entre janeiro de 2018 e abril de 2023, com a aceleração concentrada a partir de 2020.

Valorização residencial pelo IGMI-R
Ano Variação acumulada
2018 0,64%
2019 4,11%
2020 10,28%
2021 16,25%
2022 15,06%
2023 2,52%
2023 cobre apenas janeiro a abril.

Com o preço corrigido pelo índice, o imóvel que valia R$450 mil em janeiro de 2018 valia cerca de R$713.000 em abril de 2023. A renda exigida para financiá-lo passou de R$9.941 para R$18.187 — cerca de 1,8 vezes o valor de janeiro de 2018.

Gráfico de linhas da renda mínima para financiar um imóvel que valia R$450 mil em janeiro de 2018. Compara o preço fixo com o preço atualizado pelo índice imobiliário. Após 2020, a valorização aumenta a renda exigida em relação ao cenário de preço fixo.

A comparação entre as duas séries decompõe o aumento em duas forças. Mantido o preço de janeiro de 2018, a alta dos juros responde por R$1.541 da renda adicional exigida; a valorização do imóvel responde pelos outros R$6.705. O preço responde por 81% do aumento, e a valorização se concentra depois de 2020.

O IGMI-R é um índice hedônico, isto é, ajustado por qualidade2. A valorização medida não reflete apenas uma mudança na composição dos imóveis vendidos.

O que a conta não inclui

A simulação isola o efeito da taxa de juros e, por isso, omite deliberadamente vários custos que a família efetivamente paga.

O contrato típico não é prefixado. Cerca de 95% do estoque de financiamentos a pessoas físicas era indexado à Taxa Referencial (TR) em abril de 2023, com uma parcela pré-fixada somada a ela. A TR raramente passa de 0,2% ao mês, mas a conta acima não a inclui.

Além disso, a parcela que o comprador efetivamente paga carrega seguros obrigatórios (MIP e DFI) e taxa de administração, e a compra em si envolve ITBI e custos de registro. Nenhum deles entra aqui. A renda mínima calculada é, portanto, um piso.

Dois outros fatores puxam no sentido contrário. O primeiro é o crescimento da renda das famílias, que ao longo de cinco anos compensa parte do encarecimento — a análise acima mantém a renda implícita constante e mede apenas quanto seria preciso ter.

O segundo é o Minha Casa Minha Vida, que oferece taxas bem abaixo das de mercado conforme a renda da família e o preço do imóvel. O valor de R$450 mil usado aqui supera o teto do programa e não seria elegível, o que torna a simulação representativa do mercado, não do segmento subsidiado.

Por fim, as regras de aprovação variam entre instituições. Os 30% de comprometimento são uma convenção de mercado, não uma norma.

O que observar daqui em diante

A decisão do COPOM de 2 de agosto encerrou o ciclo de alta, mas a análise acima mostra que a repercussão sobre o custo do financiamento habitacional não é automática nem imediata. Cerca de 36% do volume contratado sai pela linha FGTS, cuja taxa se move por decisão administrativa e não acompanha a SELIC. O restante responde ao mercado, e com defasagem de meses.

A acessibilidade à moradia depende de três variáveis, e este post mediu duas. Juros e preços explicam por que a renda exigida para financiar um imóvel de características equivalentes quase dobrou em cinco anos. A terceira, a renda das famílias, fica para uma análise seguinte.

Ninguém decide só com dados. E ninguém decide bem sem eles.

A decisão continua sendo sua. Nosso trabalho é diminuir o que ela tem de aposta.

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Notas de rodapé

  1. O Banco Central publica as taxas contratadas como taxas efetivas ao ano. A conversão para o mês é geométrica, \((1+i)^{1/12}-1\), e não a divisão por doze. A diferença importa: a divisão simples daria 0,8333% ao mês e superestimaria a parcela.↩︎

  2. Um índice hedônico controla os atributos do imóvel — área, localização, padrão — de modo a estimar a variação de preço de um imóvel de características constantes.↩︎